Momento de reflexão

Vi um padre da cidade de Chapecó concedendo uma entrevista onde dizia: “Uma tragédia como essa, também é professora. Pois nos ensina.”

Eu não possuo religião, mas possuo fé. Acreditar em algo, seja você tendo certeza ou dúvidas, muitas vezes é algo que te move. Nem gosto de ficar comentando sobre isso, afinal, penso ser de foro íntimo de cada um, cada um na sua, com sua fé, sua crença, etc; Num momento como esse, de uma tragédia de dores incalculáveis, como disse o padre, impossível não se deparar com inúmeras reflexões e certamente, ao final, iremos nos questionar em reflexões sobre a vida.

chape

Seria o destino? Seria um propósito? Seria um acontecimento como qualquer outro da natureza humana? Um efeito borboleta? Quem não parou para fazer essas perguntas, não é mesmo? Muitos irão se perguntar: como alguém pode permitir que isso aconteça? Outros, irão dizer que foi uma condição divina. Muitos conseguirão se confortar com palavras de fé, de destino. Outros, jamais irão se conformar seja quais palavras forem ditas.

Oras, se uma tragédia como essa gera tanta confusão, angústia, medo e tristeza, como pode alguém dizer que ela ensina algo? Eu penso que ela ensina. Seja qual for sua concepção de mundo, ela nos mostra que a vida é curta, simples, pequena e rápida. Para alguns isso seria um recomeço, para outros, um final. A certeza que a nossa vida, assim como ela é, tem um valor pequeno, porém, todos os dias, necessitamos valorizá-la mais.

O comportamento daqueles que aqui ficam, também é um aprendizado. Como pode uma tragédia como essa construir a grandiosa união de um estado, um país, um planeta? Naquele avião, não estavam somente os sonhos de seus passageiros, mas também, os sonhos de muita gente. Além da dor familiar, ela alcança a dor das crianças, de uma torcida, de uma cidade inteira. E essa dor nos alcança de forma plena, pois conseguimos nos imaginar em seus lugares. E por isso dói ainda mais. Além de seres humanos, lá estavam heróis que simbolizavam um sentimento. E pergunto: o que seria nossas vidas sem estes símbolos que nos representam? Símbolos da alegria, da emoção, da tristeza, do amor, da crença, etc;

A vida vai seguir, todos irão se reerguer, todos irão se ajudar, mas o passado jamais será esquecido. O valor das nossas foi duramente questionado e, certamente, daqui em diante, nossas vidas serão diferentes. Mas, apesar da tristeza e da fraqueza que isso está nos causando, esse momento também poderá nos ensinar que a glória, a felicidade, a conquista e a memória se eternizam.

 

 

 

Tubarão voltando pra casa

vgd

E o Londrina irá voltar a jogar no estádio VGD na próxima quarta-feira, às 21h45, pelo Paranaense contra o Paraná Clube. Será um grande reencontro com o estádio mais charmoso da cidade e certamente local de boas memórias para o torcedor londrinense.

No VGD vivi momentos muito felizes com o LEC e o desejo de voltar a ver a equipe jogando na Vila Casoni está estampado no rosto da torcida há anos.

O dia demorou, mas enfim, está chegando. Uh, VGD!!! Uh, VGD!!!

Londrina e o eixão

Não é de o hoje que toda vez que um time do chamado eixo Rio-São Paulo vêm jogar em Londrina, gera uma grande polêmica. Também, não é pra menos, toda vez que a torcida do Londrina consegue ampliar a identidade da cidade com o Tubarão, algum desavisado aparece com a péssima notícia de que o estádio do Café vai receber um jogo desses.

Muitos não entendem por que nós, torcedores do Londrina, ficamos tão chateados quando uma equipe do eixão aparece por aqui, mas isso se dá ao fato de que não compreendem a distinção entre a paixão e simples diversão. Certamente, porque não vivenciam isso da mesma maneira que muitos de nós. Para boa parte da torcida alviceleste, ir ao estádio todo fim de semana, pagar ingresso, fazer sócio-torcedor, comprar camisas, ouvir o radinho durante a semana, viajar, botar uma camisa nas crianças, não é somente uma diversão. É claro que é lazer, claro que é diversão, também, obvio que é um momento de alegria e prazer, mas que para nós também é uma paixão. Digamos no sentido de ideologia mesmo, como aquela pessoa frequenta uma determinada religião, um determinado partido político, uma organização social, etc. E não tem nada de errado nisso, oras, é apenas mais um espaço da vida social de qualquer cidadão e por isso precisa ser respeitado.

Sem dúvidas que você precisa ter o mínimo de discernimento para saber quando está extrapolando os limites do bom senso e das relações humanas, seja no futebol, na igreja, na política, etc, mas não pode deixar de reivindicar seu espaço, e é justamente este espaço que é ferido quando alguém, ou, alguns fazem uma bobeira dessas de trazer de um jogo do eixão pra cá, ainda mais neste bom momento do Londrina, sendo campeão paranaense, subindo para a série C, tentando a vaga da série B, aumentando a identidade com a cidade, voltando a ter credibilidade na praça e sendo referência de muitas crianças e jovens que, no futuro, irão aumentar ainda mais a nossa torcida.

Tudo o que o Tubarão menos precisa neste momento é disso. Principalmente de parte da mídia local, que perde tempo demais falando destes clubes do eixão dando a desculpa de que a população londrinense tem dois times etc, oras! Como se as mídias que formam opinião fossem isentas da culpa deste processo. Não é?

A torcida alviceleste está crescendo bastante nos últimos anos, as campanhas dentro e fora de campo contribuem muito para isso e assim sabemos que a maioria dos londrinenses que gostam de futebol, que curtem algum time do eixão, podem, em algum momento, deixar de ter apenas um carinho especial pelo LEC e passar a ser um torcedor do Tubarão, e ao longo do tempo esquecer que existe esses times do eixo. Porém, isso é um processo que está acontecendo a curto, médio e longo prazo, mas que não podemos deixar que ele seja afetado por pessoas que não sentem o mesmo amor e paixão pelo caçula gigante e só pensam em ganhar grana usando a cidade.

Arthur Montagnini

A propagação do ódio e o lado da mídia

odio

Ainda em tempo, imagine você, se a televisão flagrar um torcedor na arquibancada fazendo gestos para a torcida rival levando a mão ao pescoço, como se dissesse: vou te degolar! Já pensaram o alarde que a mídia faria? Bem, não seria pra menos, afinal, degolar alguém só porque não torce para o mesmo time que você, seja um gesto de “brincadeira” ou no calor da emoção, não é aceitável.

Temos vivenciado cada vez mais a sociedade do ódio: odeio você, porque sou contra você. Mas normalmente esquecem de perguntar: de onde vem o ódio? Quem constrói isso? A sociedade violenta, obviamente está em todo lugar, inclusive, no futebol. Agora, em meio à tantos casos de violência no futebol, as autoridades, polícias e os veículos de comunicação, normalmente, apontam apenas um culpado: o torcedor ou torcedora. A violência, essa que está na sociedade como um todo e se manifesta também no esporte, não acontece do nada, mas é construída cotidianamente também pelas autoridades ou por quem teria a responsabilidade de enfrentá-las.

O exemplo claro, aconteceu essa semana. Deixando de lado a rivalidade ou o placar do jogo, é inaceitável, que se permita um atleta, que é visto como exemplo para inúmeras crianças, jovens e adultos, propagar qualquer tipo de atitude violenta, mesmo que ela se defina em um simples gesto, que pareça inofensivo, mas não é. Pior, ainda, é o consentimento de toda a estrutura que está por trás da sociedade e do principalmente do esporte.

Nós pudemos ver isso claramente no jogo entre Coritiba x Londrina, no Couto Pereira, válido pela semi-final do campeonato paranaense. Como, um jogador profissional vai até a torcida adversária e propaga um gesto violento, explicitamente incitando o ódio e nada acontece com ele? A arbitragem não o pune e assim, permite que todos os outros atletas façam o mesmo gesto de cortar a garganta do inimigo – aliás, adversário não existe mais, é inimigo. E a Federação? Qual a abordagem, qual medida tomada? Silêncio. A televisão, formadora de opinião, trata com normalidade o caso. O jornal, inclusive, um veículo impresso de boa circulação da cidade de Londrina, tem a coragem de estampar um gesto desses na capa da sua edição, como se naturalizasse esse tipo de violência. A imprensa curitibana, então? Se pudesse editar para colocar um vermelho de sangue ali, estaria melhor ainda. Agora, a pergunta que fica: e se fosse um torcedor? Ou, então, um torcedor organizado? Ah, sim, certamente todos fariam aqueles sensacionalismos, afinal, a culpa da violência no futebol é apenas das torcidas.

Arthur Montagnini

Patriotismo

Fiquei a semana inteira pensando: o que levaria uma pessoa a sair pra rua protestar contra a presidenta da república, pedir a volta da ditadura militar (ou intervenção como alguns dizem), utilizando, em massa, a camiseta da seleção brasileira de futebol que tem o símbolo da CBF, uma coisa parece ter nada a ver com a outra. Li vários artigos, conversei com muita gente, vi inúmeros vídeos a tentar compreender como que, pessoas com nível de estudos considerável, conseguiam ter a capacidade de submeter a isso, devida as circunstâncias que foram os protestos, que ainda prometem uma segunda etapa.
Nosso país, que possui uma democracia representativa muito curta – menos de trinta anos de redemocratização – sofre, com a baixa participação da população brasileira em temas importantes para a sociedade. Aprendemos, nesse curto tempo, que são nossos representantes é que devem falar por nós, agir e pensar, por nós. A prática real de cidadania em nosso cotidiano é muito pequena. No geral, ainda não participamos da democracia, de fato. Independente do nível de escolaridade ou classe social, não nos acostumamos, ainda, a pensar, agir e soltar a voz, por nós mesmos. Colocamos em pedestais, nossos representantes, esquecendo que eles são pessoas iguais a gente. Veneramos qualquer informação e não aprendemos, desde cedo, nas escolas ou em casa, que a sociedade democrática só pode ser construída com base na discussão e no debate, aliás, aprendemos muito cedo a odiar quaisquer debates e discussões, com a aquela velha desculpa: “isso não leva a nada”.
Estamos engatinhando na democracia. Não aprendemos, ainda, a ter nossa visão de mundo, digo, a nossa mesmo, aquela construída por nós, sem interferências, manipulações ou preconceitos. Visão de mundo, quem você é e o que você representa nesse mundão. Olhamos para a escola da esquina de casa, como se ela fosse apenas paredes erguidas para encher de criança e aprender um montão de coisas que nunca irão utilizar na vida. Vemos a praça, as ruas, o comércio, o posto de saúde, o hospital, a polícia, como se fossem coisas definitivas, como se sempre estivessem ali e ali, sempre estarão. Não há questionamento. De nada.

Pra nós, a política – só de falar esse termo muita gente já sai andando e não quer ouvir mais nada – é algo completamente distante. Política é voto, é eleição. A cada dois anos nós vamos pra urna e escolhemos alguém (com uma foto bonita e frases de efeito) pra administrar tudo que está a nossa volta. Política também é televisão, são esses “vagabundos dos políticos” (que vieram de Marte) vivem apenas em Brasília, aparecem nos escândalos e só estão lá para atender os próprios interesses – até que não deixa de ser verdade em alguns casos – e por isso, melhor não participar da ‘política’. Quando é pra participar da política é só pra ir votar. Quem nunca ouviu aquela famosa frase triste: “o povo tem que protestar na urna” e, normalmente, quando a gente se interessa tanto pelo pleito, não consegue conter os ânimos, as emoções e pela falta de prática democrática torna tudo um obscuro jogo maniqueísta: bom, agora o azul é bom e o vermelho é mau, ou o amarelo é ruim e verde é legal. Pior ainda, é quando vivenciamos a política, só naquele favor que eu preciso com um amigo de um sobrinho meu, que trabalha para o vereador tal e que vai conseguir dar aquela ajeitada na minha situação.

Depois disso tudo, voltando ao início do texto, vamos tentar perceber, qual é o momento, dos poucos momentos que temos nessa vida, onde realmente parece que estamos lutando por algo, fazendo parte do Brasil, de uma união, de um patriotismo – que não acontece em outros momentos?
Acredito eu: na Copa do mundo de futebol.
É por essa falta de participação política constante do nosso aguerrido povo, que os poucos momentos que nos recordam estar fazendo algo por este país, ou ao menos parece que estamos – ainda que soframos uma alta ajudinha midiática patriótica – é na Copa. Quando a gente coloca aquela camiseta canarinho, com as cores da bandeira nacional, canta o hino junto e no fim, tudo dá certo e se não deu, nós tentamos. Mas nos dias atuais, o patriotismo de Copa do Mundo parece entrar em conflito, quando você percebe que não pode mais lutar pelo Brasil somente na hora do gol. Precisa mais. Ainda que nossa sociedade sofra de toda a manipulação midiática ou desinformação proposital, ela quer o melhor para o país. Talvez não saiba como conseguir, e às vezes, nem sabe o que pode realmente ser algo bom. Mas nós precisamos participar da democracia de qualquer maneira, pois sentimos a necessidade.

As confusões e contradições começam, então, a aparecer.
Vou pra rua com a camiseta da seleção brasileira, ou uma camisa com as cores da nação, cantar o hino nacional e caminhar junto aos meus camaradas – igual na Copa – só que dessa vez, estamos lutando de verdade pelo Brasil, pode pensar um cidadão.

As cores que você vai pra rua, pouco importam na verdade, afinal, muitos nem sabem que o verde e amarelo da bandeira nacional, é uma representação das cores da família imperial, na época que ainda éramos colônia dos Portugueses. Mas tudo bem, de qualquer maneira, lembra as cores da bandeira, que inclusive, é linda. Eu particularmente adoro a bandeira do Brasil e tenho orgulho da nossa camisa canarinho, mas não te faz menos brasileiro se tu fores protestar de vermelho, azul, branco, preto, dourado e etc.

Entre tantas outras confusões, a maior confusão – tá, a maior ignorância – é pedir uma intervenção militar. Pera lá, qualquer pessoa que tenha estudado uma aulinha história no ensino fundamental, sabe que a ditadura militar no Brasil, servia aos interesses norte americano e toda orquestração da ditadura (que foi um dos períodos mais corruptos da política brasileira e você talvez não soubesse, pois eles costumavam matar quem era de oposição) foi realizada pelos amigos do Tio Sam. Ou seja, a pessoa, se diz patriota, coloca as cores da bandeira do Brasil e defende que o país perca a soberania nacional. É, tipo, pegar uma linda bandeira do Brasil, jogar ela chão, pedir pro Obama pisar em cima e você aplaudir. Não tem nada de patriótico nisso, aliás, pedir a volta da ditadura, além de ser antipatriota é um ato criminoso perante a Lei brasileira. Mas, não podemos crucificar quem faz isso, por mais contraditório que seja a culpa é de todos nós.

Essa falta de prática, discussão e debate, é que torna as nossas necessidades reais altamente manipuláveis, pois, as indignações dos brasileiros – e do mundo inteiro – são reais e atuais, mas a fragilizada relação que temos com a política, como se ela fosse alto distante, torna muito mais difícil a nossa luta. Faz a gente sair pra rua, pedir impedimento da presidenta da república, como se para nós fosse a única alternativa de melhorar aquilo que nos incomoda, quando, na verdade, não só prejudica nossa democracia e não muda, não altera e não transforma a estrutura de poder corrompida que está posta há séculos.

Sempre digo e vou morrer dizendo: precisamos participar mais da democracia. Poxa, mas como a gente participa da democracia? Por mais que nosso sistema educacional seja falho e nossas crianças pouco consigam compreender isso quando saem da escola para o mundo, e no futuro, se tornarão adultos pouco interessados em falar sobre política, é nosso dever nos esforçarmos para promover a cidadania. Não é coisa fácil. Não é nada simples, participar das reuniões das associações do bairro onde você mora, dar uma chegada naquela reunião do sindicato onde você trabalha ou ver o que tá acontecendo nas reuniões da entidade estudantil que representa a sua faculdade. Quem sabe, dar um pulinho na câmara dos vereadores, naquela audiência pública importante. Aquela pesquisada nos partidos políticos, ver aquilo que você concorda ou não. E o principal: questionar. De onde isso vem, pra onde isso vai. Como isso chegou aqui, isso realmente deve continuar aqui. Não venere todas as informações que você recebe, questione-as. Construa suas próprias ideias a partir da sua própria opinião ou perspectiva.

Ao contrário de muita gente que conheço, eu sou um otimista. Acho que estamos no caminho certo e a democracia nos exige isso, que consigamos olhar a frente, muito além do que simplesmente é colocado diante dos nossos olhos. O ser humano é, por natureza, um ser questionador. O brasileiro é, culturalmente, um cidadão apaixonado, alegre e batalhador. Vivemos num país maravilhoso, com riquezas incomensuráveis, porém, com inúmeras contradições. Estamos aprendendo muita coisa e certamente, por mais que existam setores que remam contra, o nosso povo, estará cada vez mais preparado para caminhar em favor do desenvolvimento humano, social e de um país mais justo e menos desigual, e claro, com maior participação popular nas fileiras da democracia.

Arthur Montagnini